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Silvio Meira: empresas precisam redesenhar negócios para extrair valor da IA

06/08/2026
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O cientista-chefe da TDS Company e cofundador do Porto Digital, Silvio Meira, afirma que as empresas ainda não conseguem extrair todo o potencial da inteligência artificial porque tentam encaixá-la em processos antigos, sem rever a arquitetura dos negócios ou o papel das pessoas nas organizações. Durante participação na entrega do Prêmio Valor Inovação Brasil 2026, realizada em 3 de agosto em São Paulo, Meira conversou com Elisa Campos, editora-chefe da revista Época Negócios, e defendeu a reestruturação das companhias e a mudança no papel dos seres humanos, que devem atuar como orquestradores de inteligências e validadores das soluções produzidas pelas máquinas.

Para Meira, a transformação provocada pela inteligência artificial é a maior já produzida por uma tecnologia de propósito geral. Ele alerta que, sem redesenhar processos e sem compreender o novo papel dos profissionais como criadores de contexto e arquitetos de interpretação do que foi gerado por sistemas de IA, as organizações não conseguirão agregar valor como poderiam.

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O especialista costuma citar um conceito de Peter Drucker, considerado o pai da gestão moderna, segundo o qual o objetivo final da inovação não é criar um produto ou um processo, mas garantir a sobrevivência. Meira explica que a inovação, como processo contínuo, acontece quando as empresas têm percepção antecipada das mudanças em seus mercados, especialmente em períodos de inovação radical.

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Como exemplo mais catastrófico dos últimos 25 anos, ele cita a chegada do iPhone em 2007. Naquela época, a Nokia investia mais do que todo o faturamento da Apple em pesquisa, desenvolvimento e inovação. O lançamento de Steve Jobs nem sequer estava no mesmo mercado da Nokia. Ainda assim, três anos depois, o negócio de celulares tradicionais havia desaparecido, substituído pelo mercado global dos smartphones, porque a empresa finlandesa não conseguiu antecipar a transformação do mercado.

Ao ser questionado sobre como equilibrar a entrega de resultados de curto prazo com o imperativo de inovar, Meira é direto: inovação é um problema de longo prazo, intrinsecamente associado aos regimes de incentivos das organizações. Se esses regimes recompensam apenas o curto prazo e se os executivos permanecem nas empresas por apenas dois ou três anos, a maioria das tentativas de inovar estruturalmente fracassa, pois as lideranças não se envolvem.

Ele observa que a inovação traz risco e possibilidade de fracasso. Se os profissionais não são reconhecidos por tentar, errar e aprender com os erros, ou se são punidos por isso, não há motivo para tentar. A questão central, segundo Meira, é ter coragem para escolher os problemas e decidir onde inovar.

Historicamente, as empresas começam a inovar na periferia, não no núcleo do negócio. Buscam uma oportunidade externa e a tratam como um laboratório de experimentação. Testam conceitos e hipóteses para avaliar se é possível criar um protótipo ou piloto que ganhe escala. Na hora de executar, porém, encontram dificuldades para defender a mudança, porque sabem que estão arriscando seu futuro corporativo. A arquitetura interna dos negócios está desenhada para preservar a estabilidade.

Meira afirma que a vasta maioria das empresas não tem estratégia, apenas uma lista de aspirações. A diferença entre as duas coisas é que a estratégia é um processo contínuo, consciente e coletivo, que transforma aspirações em realizações. Sem estratégia, qualquer desejo pode entrar no planejamento, porque nada está realmente em jogo. O resultado, segundo ele, é o que chama de teatro de inovação: as pessoas se reúnem para falar sobre mudanças, promovem eventos que deveriam levá-las, mas no final mudam muito pouco.

Se fosse CEO de uma grande empresa brasileira, Meira diz que sua primeira prioridade seria tratar de forma honesta o contexto em que a companhia opera. Ele observa que muitos líderes operam em um país imaginário, geralmente chamado de Nárnia pelos conselhos de administração, quando na realidade emissam faturas e pagam boletos no Brasil. A segunda prioridade seria avaliar com honestidade as capacidades da organização. A terceira envolve aplicar a Lei de Ashby, formulada na década de 1960 por W. Ross Ashby, que estabelece que a complexidade e a capacidade de resposta de uma organização devem ser pelo menos iguais à complexidade dos desafios externos.

Sobre as dificuldades das empresas em extrair valor da inteligência artificial, Meira recorre a uma analogia histórica. Quando os motores elétricos surgiram em 1880, as fábricas que operavam a vapor simplesmente substituíram a máquina principal por um grande motor elétrico, mantendo toda a estrutura de correias e correntes de transmissão. A produtividade permaneceu idêntica. Levou 40 anos, até 1920, para que se entendesse a necessidade de máquinas mais leves, alimentadas por motores menores distribuídos pela fábrica, já que a energia passava a ser transmitida por corrente elétrica. Essa transformação eliminou quase todas as empresas que funcionavam a vapor.

Meira aplica o mesmo raciocínio ao cenário atual. A inteligência artificial já é capaz de realizar grande parte do trabalho cognitivo repetitivo antes executado por humanos. Em sua própria área, ele estima que 95% de toda a escrita de código que era feita por pessoas hoje pode ser executada de forma tão boa ou melhor por sistemas de IA. A máquina pode escrever dezenas de milhares de linhas de código por dia, mas cabe aos humanos ler, validar e verificar se essas linhas cumprem o objetivo, se não infringem princípios éticos, morais ou legais e se atendem à ideia original do projeto.

Para o especialista, essa dinâmica redefiniu o papel do profissional como criador de contexto, orquestrador de inteligências e arquiteto de interpretação. Manter os seres humanos no mesmo lugar, executando as mesmas tarefas, apenas de forma mais acelerada, não agrega valor. Em toda a história da humanidade, segundo Meira, criamos ferramentas para não competir com o cérebro: cadeiras para descansar, prédios para abrigar, óculos para enxergar. Pela primeira vez, a inteligência artificial coloca em competição direta a capacidade humana de abstrair problemas e concretizar soluções.

Ele lembra que a etapa de perguntas e respostas já foi resolvida com a popularização dos modelos de linguagem a partir de 2023. Atualmente, sistemas de IA são capazes de resolver problemas matemáticos que persistiram por 80 anos, feito que antigamente renderia um Prêmio Nobel a um matemático. O desafio atual, para líderes e liderados, é viver em um mundo onde uma parte significativa da capacidade cognitiva repetitiva humana pode ser imitada por sistemas de informação em velocidade não humana.

O recado final de Meira é categórico: quem não corre riscos continuará fazendo exatamente o que todos já fazem. As grandes empresas do mundo que existem hoje assumiram riscos, identificaram novos mercados e investiram neles. Sem coragem para redesenhar processos, redefinir papéis e abandonar práticas obsoletas, a inteligência artificial corre o mesmo risco que correram os motores elétricos nas fábricas a vapor: ser apenas uma tecnologia subutilizada, incapaz de gerar transformação real.

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