O empreendedor Vittor Straus pediu a um agente de inteligência artificial que analisasse o mercado global e indicasse o futuro da sua profissão. A resposta foi direta: vender a agência de marketing que ele administrava. Straus seguiu a orientação e fundou a TIDEX, empresa dedicada a medir a visibilidade de marcas em plataformas de inteligência artificial, com foco no comportamento do consumidor brasileiro.
A decisão teve como inspiração a Profound, empresa americana que criou a categoria de mensuração de visibilidade de marcas em IA. Straus adaptou o modelo para o mercado nacional, ajustando a leitura ao modo como os brasileiros utilizam ferramentas de inteligência artificial no dia a dia. O resultado é uma startup que combina análise de dados e estratégia para posicionar empresas nas respostas geradas por modelos de linguagem.
A premissa da TIDEX se baseia em uma mudança de comportamento que já está em curso. Cada vez mais consumidores deixaram de usar motores de busca tradicionais, como o Google, para perguntar diretamente a assistentes de IA qual produto comprar ou qual empresa contratar. Entre as ferramentas mais usadas estão o ChatGPT, assistente de inteligência artificial criado pela OpenAI, o Gemini, modelo de linguagem do Google, e o Claude, desenvolvido pela Anthropic, empresa de inteligência artificial fundada por ex-integrantes da OpenAI.
O problema para as empresas é claro: quando uma marca não é citada por esses modelos, ela simplesmente desaparece da decisão de compra do consumidor. É nesse cenário que a TIDEX atua, mapeando com que frequência e em que contexto cada marca aparece nas respostas das principais plataformas de IA, e desenvolvendo planos para que essas empresas sejam recomendadas com maior regularidade.
Os primeiros dados coletados pela empresa já revelam um cenário surpreendente no setor financeiro brasileiro. Em seu estudo, o Nubank, banco digital fundado em 2013 que se tornou referência em serviços financeiros sem taxas, lidera a visibilidade em IA com aproximadamente 67% de presença nas respostas geradas pelos modelos consultados. Esse número representa quase o dobro do segundo colocado no ranking.
Mais notável ainda é o desempenho do Itaú, um dos maiores bancos do Brasil e da América Latina. Segundo o levantamento da TIDEX, a instituição sequer figura entre as 20 marcas mais citadas pelos assistentes de inteligência artificial. O dado sugere que o domínio de mercado medido por métricas tradicionais não se traduz automaticamente em visibilidade nos novos canais de recomendação automatizada.
Esse tipo de informação começa a ganhar peso estratégico para as áreas de marketing e comunicação das grandes empresas. A mensuração de visibilidade em IA é um conceito recente, mas que tende a crescer à medida que mais consumidores adotam assistentes conversacionais como ferramenta principal de pesquisa e decisão de compra. A TIDEX se posiciona como ponte entre esse novo comportamento e as estratégias de marca.
A ambição da empresa é significativa. A TIDEX projeta atender mais de 500 clientes até o fim de 2026, o que indicaria um ritmo acelerado de expansão para um negócio recém-criado. O número reflete a expectativa de que a demanda por mensuração e otimização de presença em plataformas de inteligência artificial cresça de forma consistente nos próximos meses.
A trajetória de Straus ilustra um fenômeno que se torna cada vez mais comum no ambiente corporativo: profissionais e empresas utilizando agentes de inteligência artificial não apenas como ferramentas operacionais, mas como consultores estratégicos capazes de analisar grandes volumes de dados e sugerir mudanças de rumo. No caso dele, a orientação da IA levou à redefinição completa de seu negócio.
A criação da TIDEX também sinaliza o surgimento de um novo segmento dentro do mercado de marketing e tecnologia. Assim como a otimização para motores de busca, conhecida como SEO, se tornou uma disciplina essencial nas últimas duas décadas, a otimização para modelos de linguagem começa a ganhar espaço como prática indispensável para marcas que querem manter relevância.
O caso do Nubank e do Itaú evidencia que as regras desse novo jogo ainda estão sendo definidas. Marcas com forte presença digital e comunicação direta ao consumidor parecem ter vantagem na disputa pela atenção dos modelos de IA, enquanto empresas tradicionais, mesmo com grande fatia de mercado, podem ficar para trás se não adaptarem suas estratégias.
Para Straus, a aposta foi dupla. Ele confiou na inteligência artificial para tomar uma decisão empresarial de grande impacto e, ao mesmo tempo, transformou essa experiência em um negócio focado exatamente nesse universo. A TIDEX nasceu da convergência entre a coragem de mudar de rumo e a capacidade de identificar uma oportunidade de mercado emergente, ancorada em dados que poucos empresários brasileiros ainda acompanham de perto.