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Pentágono aposta US$ 30,3 milhões em inteligência artificial para criar o detector de mentiras do futuro — e especialistas já duvidam

25/09/2026
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Pentagon investe 30,3 milhões de dólares em detector de mentiras com inteligência artificial

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos pretende investir 30,3 milhões de dólares ao longo dos próximos cinco anos no desenvolvimento de uma nova geração de detectores de mentiras baseados em inteligência artificial. A informação consta em um pedido orçamentário do Pentágono revelado inicialmente pelo site Inside Defense. O programa, batizado de Polygraph+ ou Polygraph Next, está voltado para a criação de algoritmos de pontuação que utilizam técnicas de inteligência artificial e aprendizado de máquina, além de um método chamado "standoff sensing", que consiste na capacidade de obter leituras fisiológicas de uma pessoa sem a necessidade de conectar qualquer dispositivo ao corpo do examinado.

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De acordo com o documento orçamentário, ainda não aprovado pelo Congresso norte-americano, o projeto pretende modernizar as tecnologias federais de polígrafo e avaliação de credibilidade, buscando aumentar a precisão e a confiabilidade desses sistemas. A execução ficará a cargo da Defense Counterintelligence and Security Agency (DCSA), agência responsável pela realização de investigações de antecedentes para o governo federal. A nova tecnologia será empregada na análise de candidatos a cargos públicos e em ações de "detecção de ameaças internas". Até o momento, não há detalhes claros sobre quais tecnologias específicas serão adotadas, e a DCSA não respondeu aos pedidos de informação.

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O investimento surge em meio a um período de forte tensão interna no Pentágono. Sob a gestão do Secretário de Defesa Pete Hegseth, o departamento tem recorrido com frequência crescente a testes de polígrafo na tentativa de identificar fontes de supostos vazamentos à imprensa. Segundo reportagem do The New York Times, cerca de 50 oficiais do Estado-Maior Conjunto foram submetidos a exames desse tipo após notícias sobre o esgotamento de estoques de armas norte-americanas durante o conflito com o Irã.

Embora o Pentágono não tenha detalhado quais empresas participarão do desenvolvimento, inciativas anteriores do próprio departamento oferecem pistas sobre as tecnologias em estudo. Em 2023, a Defense Innovation Unit (DIU) realizou um processo público de seleção para encontrar empresas com produtos voltados à detecção de mentiras. Duas companhias foram escolhidas para construir protótipos: a Presage Technologies, que afirma ser capaz de medir frequência cardíaca e respiratória por meio de câmeras comuns, e a Altec Research, uma empresa de sensores médicos que está expandindo sua atuação para tecnologias de leitura sem contato. Um protótipo divulgado pela DIU mostra que a Altec é capaz de monitorar movimentos da cabeça, temperatura da pele do rosto e atividade das poros. Ambas as empresas não responderam aos pedidos de comentário.

A proposta, porém, não convence especialistas da área. Kyri Kotsoglou, professor da Northumbria Law School, no Reino Unido, que estuda o uso de polígrafos no sistema de justiça, classifica o esforço como uma tentativa equivocada de reduzir algo complexo a uma medida tangível. A crítica se soma a um histórico longo de questionamentos sobre a confiabilidade do polígrafo tradicional, inventado na década de 1920 e baseado em medições de pressão arterial, pulso, respiração e transpiração. Em 1983, o Office of Technology Assessment do Congresso norte-americano concluiu que havia evidências muito limitadas para justificar seu uso na seleção de funcionários. Já em 2003, o National Research Council classificou as evidências de eficácia do método como "fracas na melhor das hipóteses".

Pesquisas indicam que seres humanos conseguem identificar uma mentira em pouco mais de metade das vezes sem qualquer recurso tecnológico. A American Polygraph Association afirma que o equipamento atinge entre 80% e 94% de precisão, mas o relatório de 2003 do NRC destaca que, mesmo com esse índice, um teste aplicado em larga escala poderia produzir um volume elevado de resultados incorretos. O Departamento de Defesa norte-americano emprega 2,8 milhões de pessoas, o que amplifica o impacto de possíveis falhas do sistema. Outros problemas incluem a subjetividade na interpretação dos resultados, a maior probabilidade de pessoas de grupos minoritários serem classificadas como enganosas e a existência de técnicas de treinamento que permitem enganar o aparelho, como causar respostas fisiológicas elevadas em perguntas de controle, por exemplo, pisando em um objeto escondido no calçado.

Sophie van der Zee, professora associada da Erasmus University, em Rotterdam, que pesquisa o tema da mentira, lembra que existem três camadas que a detecção de mentiras tenta atingir: o estresse fisiológico, a carga cognitiva e os efforts conscientes para ocultar a mentira. O polígrafo tradicional aborda apenas uma dessas frentes. Para ela, a combinação de múltiplos métodos poderia oferecer resultados mais sólidos. Ainda assim, ela reconhece que não existe um sinal único e universal que indique mentira, o que torna extremamente difícil o desenvolvimento de uma tecnologia verdadeiramente confiável. Kotsoglou considera que combinar inteligência artificial com o polígrafo representa "o pior dos dois mundos", somando incerteza a um método já considerado inválido.

Para Marion Oswald, professora de direito que já publicou estudos com Kotsoglou sobre o uso de polígrafos na justiça, a tendência é que os novos métodos continuem sendo usados mais como instrumento psicológico do que científico. Ela avalia que o movimento atual do Pentágono parece ser uma resposta às preocupações da administração com vazamentos e com a percepção de falta de lealdade, usando os exames como forma de intimidação. Iniciativas anteriores de detecção de mentiras baseadas em tecnologia, como o sistema Silent Talker, o projeto europeu iBorderCtrl e o programa norte-americano AVATAR, também não conseguiram gerar resultados confiáveis fora de ambientes controlados, reforçando as dúvidas sobre a viabilidade do novo investimento.

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