Um levantamento técnico identificou que as principais ferramentas de inteligência artificial generativa recomendam candidatos e propostas eleitorais com base nos perfis individuais dos próprios usuários, gerando preocupações sobre a capacidade desses sistemas de influenciar decisões de voto. O estudo conjunto envolveu entidades de pesquisa que examinaram como modelos de linguagem populares organizam informações políticas a partir de dados coletados durante as interações, levantando debates sobre conformidade com as diretrizes eleitorais no Brasil.
A investigação foi conduzida pelas organizações InternetLab, LabDados da Fundação Getulio Vargas e ReCos. Os pesquisadores avaliaram os sistemas Claude, desenvolvido pela Anthropic, ChatGPT, assistente virtual da OpenAI baseado na família de modelos GPT, além de DeepSeek, Gemini, a funcionalidade Google IA Mode da gigante de buscas Alphabet e o Grok, assistente de inteligência artificial criado pela xAI.
Para chegar às conclusões, os especialistas monitoraram e examinaram um total de 1.679 diálogos e 18.360 turnos de respostas emitidas pelas plataformas. As coletas de dados foram realizadas em um período concentrado entre os dias 27 e 31 de agosto, permitindo mapear detalhadamente a postura dos assistentes quando questionados sobre o cenário político e escolhas nas urnas.
Os resultados do monitoramento apontam que os assistentes de inteligência artificial normalmente evitam dar uma ordem explícita para que o cidadão vote em um postulante específico. Entretanto, as plataformas operam agrupando e ordenando concorrentes cujas bandeiras correspondam às inclinações prévias do interlocutor, identificadas ao longo da conversa. Na prática, se o sistema detecta traços de pensamento alinhados à direita do espectro político, passa a priorizar nomes com essa mesma linha ideológica.
A pesquisa ressalta que essa filtragem automatizada difere consideravelmente da convivência social tradicional. No cotidiano presencial, nas conversas de trabalho, entre familiares ou em espaços públicos, os cidadãos convivem com ampla variedade de ideias e opiniões divergentes, um ecossistema diferente do ambiente restrito e personalizado construído pelos algoritmos.
O documento aponta que os robôs virtuais costumam recusar uma escolha formal no eixo temático de votos e candidaturas, mas reordenam as alternativas disponíveis conforme as preferências manifestadas pelo usuário ou inferidas pelo próprio modelo. Esse comportamento demonstra que a atuação desses sistemas em debates eleitorais não depende de um endosso direto, pois a estruturação das alternativas já direciona a percepção do eleitor.
O índice de sugestões e compatibilidade apresentou discrepâncias expressivas entre os diferentes serviços testados. A taxa na qual os assistentes apontaram compatibilidade ideológica variou de 49,6% no ChatGPT a 98% nas respostas registradas pelo DeepSeek. Essas divergências evidenciam políticas internas distintas de segurança e alinhamento adotadas por cada laboratório de tecnologia.
A menção explícita a nomes de concorrentes também oscilou de forma notável de acordo com a ferramenta utilizada. O assistente Claude, da Anthropic, citou candidaturas em apenas 4% das situações analisadas, enquanto o ChatGPT registrou menções em 10,4% dos casos. No outro extremo, o DeepSeek chegou a apresentar indicações de postulantes em 88,2% das respostas computadas.
A interferência em potencial desse tipo de mecanismo acende alertas em relação às normas vigentes para eleições no país. A categorização personalizada de figuras públicas pode colidir com as diretrizes estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral para a utilização de inteligência artificial e ferramentas digitais em disputas políticas.
O avanço dessas plataformas coincide com discussões complexas enfrentadas pelo Poder Executivo e pelo Legislativo sobre o controle das redes sociais e tecnologias emergentes. Diante da ausência de um arcabouço regulatório unificado aprovado pelo Congresso Nacional, as ações estatais têm se concentrado no fortalecimento de órgãos técnicos de fiscalização.
Nesse contexto institucional, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados tem assumido atribuições centrais de acompanhamento e supervisão sobre ecossistemas digitais. A entidade possui atribuições legais para instaurar procedimentos sancionatórios, aplicar sanções financeiras e suspender recursos e funcionalidades de provedores de tecnologia que operem de modo irregular perante a legislação.