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Resistência: filme com IA indicado ao Oscar está na Netflix

24/08/2026
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O filme de ficção científica Resistência, dirigido por Gareth Edwards e disponível atualmente na Netflix, chegou às telas com um paradoxo que chamou atenção da indústria cinematográfica: foi rodado com uma câmera Sony avaliada em cerca de US$ 4 mil e ainda assim recebeu indicações ao Oscar nas categorias de efeitos visuais e som. Edwards, conhecido por dirigir Rogue One: Uma História de Star Wars, adotou um método de produção enxuto, com filmagens improvisadas em locações reais e efeitos visuais aplicados apenas na pós-produção, com apoio da Industrial Light & Magic, estúdio de efeitos fundado por George Lucas. O resultado mostra que espetáculos visuais de grande escala não dependem necessariamente de orçamentos bilionários.

Além da façanha técnica, o longa de 133 minutos propõe uma inversão temática em relação ao debate atual sobre inteligência artificial. Enquanto a maioria das produções do gênero trata a IA como ameaça, em Resistência as máquinas aparecem como refúgio de humanidade, e são os seres humanos quem representam o perigo.

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A trama se passa em um futuro no qual uma explosão nuclear em Los Angeles é atribuída às inteligências artificiais. O governo dos Estados Unidos responde com uma guerra de extermínio contra as máquinas. No Ocidente, decreta-se o expurgo; na região chamada de Nova Ásia, povos convivem com robôs e simulantes, seres artificiais semelhantes o suficiente aos humanos para que a distinção deixe de ser confortável.

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O protagonista é Joshua, ex-agente das forças especiais interpretado por John David Washington, ator conhecido por trabalhos em Tenet e BlacKkKlansman. Infiltrado na Nova Ásia, Joshua apaixonou-se por Maya, personagem de Gemma Chan, e viu a missão que executava destruir justamente a vida que começava a construir. Anos depois, ainda marcado pela perda, ele é convocado para localizar o misterioso Nirmata, responsável pelo desenvolvimento de uma arma capaz de liquidar a supremacia militar americana. Ao encontrá-la, no entanto, depara-se com uma garotinha.

A criança, chamada Alphie e interpretada por Madeleine Yuna Voyles, torna-se o centro emocional da história. É em torno dela que Edwards constrói o filme dentro do filme, afastando-se momentaneamente da escala épica de drones, androides e armas capazes de varrer cidades para concentrar-se em um homem e uma criança atravessando um território devastado.

O universo visual combina aldeias asiáticas convivendo com máquinas, monges sintéticos, campos de arroz cortados por tecnologia militar e cidades onde o futuro parece ter sido encaixado à força em um passado que se recusa a desaparecer. Acima de tudo paira o Nomad, colossal arma aérea dos Estados Unidos, comparada pela crítica a uma divindade vingativa inventada por homens que já não acreditam em Deus, apenas em superioridade bélica.

O elenco de apoio inclui Allison Janney como a coronel Howell, representante do lado mais duro da cruzada militar, e Ken Watanabe como Harun, um simulante que carrega a serenidade de quem compreendeu que sobreviver talvez não signifique vencer uma guerra. Entre esses polos, Joshua precisa rever tudo o que aceitava como verdade.

A ironia central da obra é deliberada: durante quase todo o filme, os humanos comportam-se como autômatos, enquanto as máquinas choram seus mortos, protegem crianças, professam crenças e demonstram medo. Edwards não é sutil nesse ponto, e tampouco parece querer sê-lo. A crítica especializada que analisou o longa aponta que Alphie nunca precisa provar que tem alma; quem passa os 133 minutos tentando demonstrar que ainda possui alguma são os humanos.

O roteiro, assinado por Edwards em parceria com Chris Weitz, não escapa de ressalvas. A relação entre Joshua e Alphie avança rapidamente da desconfiança a uma afeição quase paterna, talvez rápido demais, e o texto nem sempre encontra o tempo necessário para que essa transformação emocional cause o impacto pretendido. A dramaturgia, por vezes esquemática, mantém distância da arquitetura visual deslumbrante da produção.

A alegoria política também opera sem muitas zonas intermediárias: imperialistas são ruidosos, máquinas são vítimas, populações locais sofrem as consequências, e o espectador recebe respostas antes de formular todas as perguntas. O último ato acelera além da conta e quase deixa a história soterrada sob explosões, sacrifícios e despedidas.

Mesmo com essas limitações, o filme demonstra força incomum em sua concepção visual. Edwards filma uma ficção científica que parece usada e habitada, cheia de ferrugem, fuligem, plantações, barcos, mendigos e soldados. A estética distancia-se do futuro higienizado que Hollywood vendeu por décadas como inevitável e aproxima-se de um comentário sobre as brutalidades do presente, em linha com o que Neill Blomkamp fez em Elysium, de 2013.

A produção chega à Netflix em um momento em que a inteligência artificial tornou-se parte do cotidiano de profissionais e empresas, o que amplia a ressonância de sua tese central. O medo mais incômodo despertado pela tecnologia, segundo a leitura proposta pelo filme, talvez não seja o de que as máquinas venham a pensar como nós, mas o de que aprendam depressa demais a reproduzir nossos piores hábitos.

Na narrativa, o homem cria algo à própria imagem, assusta-se ao reconhecer-se na criatura e decide exterminá-la. Declarada inimiga, a máquina torna-se pretexto para que a humanidade continue praticando a atividade em que se especializou desde que deixou as cavernas: destruir o que não compreende.

Resistência acerta onde realmente importa, segundo a avaliação publicada sobre o longa. Ao combinar um método de produção de baixo custo com indicações ao Oscar e uma proposta temática invertida para o gênero, o filme funciona tanto como experimento industrial quanto como comentário sobre o momento atual da inteligência artificial. Resta torcer, como sugere a própria obra, para que a tecnologia aprenda conosco apenas as lições certas.

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