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A cidade das ovelhas que virou cérebro digital: como Ulanqab, na Mongólia Interior, sustenta o boom de inteligência artificial da China

22/08/2026
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Cidade na Mongólia Interior se torna polo estratégico de data centers para a inteligência artificial chinesa

A cerca de duas horas de trem a oeste de Pequim, uma cidade na região autônoma da Mongólia Interior, na China, se transformou em um dos principais polos de data centers do país, impulsionando a infraestrutura que sustenta o atual boom de inteligência artificial chinês. O crescimento da região chama atenção pelo contraste: trata-se de uma área historicamente conhecida pela criação de ovinos e pela mineração de carvão, que agora abriga dezenas de instalações de computação em larga escala.

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De acordo com uma reportagem publicada pela Wired, o interesse pela região se explica por uma combinação de fatores estruturais. A energia é barata, a disponibilidade de terras é ampla e a proximidade com a capital chinesa facilita a conexão e a operação dos grandes projetos de infraestrutura digital. Essas condições fizeram com que a área fosse escolhida como uma das bases do programa governamental chamado "Eastern Data, Western Compute", lançado em 2021, que tem como objetivo descentralizar a construção de data centers para o interior do país, aproveitando recursos energéticos locais.

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A cidade de Ulanqab é um dos principais exemplos desse movimento. Com cerca de 1,5 milhão de habitantes, o município recebeu investimentos de gigantes da tecnologia ainda antes da onda atual de inteligência artificial. A Huawei construiu seu primeiro data center na cidade em 2016, e a Apple seguiu três anos depois, em 2019. Desde então, quase cem data centers foram inaugurados ou iniciaram construção na região, segundo dados compilados por uma nota de pesquisa recente do Goldman Sachs.

Ainda de acordo com o levantamento do banco, empresas chinesas se comprometeram a erguer projetos com capacidade combinada estimada em 12,5 gigawatts na cidade. O movimento é recente: mais de 70% do total desses compromissos foram anunciados apenas no último ano, o que torna Ulanqab um dos clusters de computação que mais crescem na Ásia.

Além das vantagens logísticas, a região também é vista pelo governo chinês como uma forma de dar destino à capacidade excedente de energia renovável gerada em áreas remotas. Segundo Damien Ma, diretor do Carnegie China, centro de pesquisa sediado em Singapura, existe uma correlação positiva entre as regiões chinesas com maior volume de energia renovável não utilizada e aquelas onde mais data centers foram construídos. A lógica é simples: onde há eletricidade limpa sobrando, faz sentido instalar infraestruturas que demandam enormes quantidades de energia para funcionar.

Esse arranjo contrasta com a abordagem adotada em outros países, onde grandes data centers tendem a se concentrar em regiões metropolitanas como o Vale do Silício, nos Estados Unidos. Na China, a estratégia passou a privilegiar regiões interiores com clima mais frio, terras disponíveis e acesso a fontes renováveis, ajustando a expansão digital às características geográficas do território.

A reportagem também destaca que o crescimento dos data centers em Ulanqab não se limita a grandes corporações internacionais. A corrida pela inteligência artificial aproximou laboratórios chineses especializados em modelos de fronteira da região, reforçando a aposta no local como peça fundamental da infraestrutura digital do país.

Com a combinação de energia barata, espaço físico, conectividade com Pequim e uma política governamental que incentiva o uso de fontes renováveis, a Mongólia Interior deixou de ser apenas uma região de pastagens e minas para se tornar um dos pontos centrais da estratégia chinesa em inteligência artificial, sustentando silenciosamente parte significativa do processamento que alimenta os sistemas de IA em desenvolvimento no país.

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