PUBLICIDADE

Livros encalhados há décadas são comprados em massa para treinar IA

16/08/2026
12 visualizações
4 min de leitura
Imagem principal do post

Títulos que passaram décadas encalhados nas prateleiras de sebos e livrarias de usados viraram, de forma repentina, alvo de pedidos em grande volume. Livreiros relatam a chegada de compradores desconhecidos, interessados em múltiplos exemplares de obras obscuras e fora de catálogo, dispostos a pagar preços acima dos praticados pelo mercado e sem qualquer regateio. A explicação mais provável para o fenômeno está na corrida das grandes empresas de tecnologia por dados de treinamento para sistemas de inteligência artificial, entre eles o Claude, assistente criado pela Anthropic, companhia fundada por ex-pesquisadores da OpenAI.

Para quem vive do comércio de livros antigos, o quadro era desconcertante. Obras que ninguém procurava há vinte ou trinta anos passaram a ser solicitadas às dezenas, muitas vezes com urgência. Os pedidos tinham ainda uma característica curiosa: o foco em títulos com pouca ou nenhuma presença na internet, exatamente o tipo de material que interessa a quem treina modelos de linguagem.

Imagem complementar

Modelos de linguagem, a tecnologia por trás de assistentes como o Claude e o ChatGPT, da OpenAI, são treinados com volumes massivos de texto. Aprendem padrões de escrita, informação factual e estrutura de raciocínio a partir desse material. Quanto mais diversificado e inédito for o conjunto de dados, maior o potencial de melhoria do modelo treinado.

PUBLICIDADE

Os compradores desses livros, contudo, raramente se apresentavam como empresas conhecidas. Os pedidos chegavam por e-mails genéricos e intermediários, com pagamentos rápidos e sem discussão de preço. Livreiros atenderam as vendas como oportunidade comercial, mas ficaram intrigados com a natureza das encomendas e com a insistência em obras específicas, de circulação restrita e valor comercial praticamente nulo.

Documentos e correspondências associados a essas compras apontam para empresas especializadas no fornecimento de dados para IA, entre elas a Toloka e a Invisible Technologies. A Toloka é uma empresa de anotação e curadoria de dados criada no ecossistema do buscador Yandex; a Invisible, sediada em São Francisco, presta serviços de automação e preparação de dados para grandes companhias de tecnologia. Ambas atuam como elo entre os gigantes de IA e fontes de material humano difícil de encontrar.

A Toloka confirmou que atua na localização e aquisição de livros para treinamento de inteligência artificial e reconheceu manter relação comercial com a Anthropic. A empresa sustenta que paga preços justos pelos volumes adquiridos e que trabalha com fornecedores que respeitam as regras do mercado.

A Anthropic, por sua vez, afirmou que os livros utilizados em seus processos são adequadamente licenciados e que remunera os parceiros responsáveis pelo fornecimento do material. A companhia não detalhou os termos dos contratos nem os valores envolvidos nas aquisições.

O interesse por títulos encalhados tem uma razão técnica direta. As principais empresas de IA já consumiram boa parte do texto publicamente disponível na internet, de artigos de notícias a repositórios técnicos. Diante dessa chamada parede de dados, a busca se deslocou para material exclusivo, impresso antes da era digital e ainda não digitalizado. Livros usados e raros são exatamente isso: texto que, na prática, ainda não foi visto por nenhum modelo.

Essa escassez elevou o valor de mercado do que antes era considerado lixo de estoque. Em alguns relatos de livreiros, os compradores chegaram a oferecer valores adicionais por exemplares difíceis de encontrar e a pedir prioridade para obras completamente ausentes de catálogos digitais e bibliotecas online.

O fenômeno também reacende a discussão sobre direitos autorais. A revenda de um livro usado não gera qualquer repasse ao autor, e críticos questionam se a digitalização e o uso em massa dessas obras para treinar modelos comerciais configurariam uma forma de exploração que exigiria licenciamento junto aos detentores dos direitos. Autores e entidades do setor editorial já discutem limites semelhantes em disputas judiciais envolvendo grandes empresas de IA.

As reações dos próprios livreiros são divididas. Há quem comemore a chance de escoar um estoque parado há décadas e converter em caixa aquilo que ocupava espaço. Outros relatam desconforto por vender para um cliente que não revela sua identidade nem o destino final das obras, sobretudo ao perceber que o material pode alimentar sistemas de IA.

O perfil dos livros procurados surpreende pela amplitude. Manuais técnicos ultrapassados, teses acadêmicas, guias regionais, livros de referência especializada e obras literárias de circulação mínima aparecem nas listas de interesse. Para uma máquina que aprende lendo, todo texto é matéria-prima, e a obscuridade de uma obra deixou de ser sinônimo de inutilidade.

O episódio expõe uma nova economia em torno dos dados de treinamento, na qual há uma hierarquia clara de valor: texto disponível online já foi absorvido, enquanto material exclusivo do mundo físico ganha preço de commodity rara. Empresas de curadoria de dados contratam pessoas para localizar, comprar e digitalizar essas fontes, criando uma cadeia produtiva inteira dedicada a alimentar modelos.

Para o mercado de livros usados, o comprador misterioso transformou um passivo comercial em demanda aquecida. Para a indústria de inteligência artificial, o movimento é um sinal de que a disputa por matéria-prima deixou o ambiente digital e chegou às prateleiras empoeiradas do mundo físico, onde ainda existe texto que nenhuma máquina leu.

PUBLICIDADE

Leitura recomendada

Comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!