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Câmeras com IA tentam antecipar crimes e geram debate sobre privacidade

10/08/2026
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Sistemas de câmeras de monitoramento equipados com inteligência artificial prometem identificar comportamentos suspeitos antes que crimes aconteçam, indo além da simples gravação de imagens. A tecnologia, conhecida como policiamento preditivo, converte vídeos em dados para reconhecer padrões considerados normais e emitir alertas quando algo foge desse padrão. Empresas de segurança privada já adotam essas ferramentas, mas especialistas alertam para a falta de regulação específica e para o risco de vigilância excessiva sobre cidadãos comuns.

A NoLeak, empresa brasileira que desenvolveu um sistema de policiamento preditivo voltado à segurança privada, explica que a tecnologia se conecta à câmera e transforma a imagem em metadados — sequências numéricas que representam elementos do vídeo. Quando o padrão identificado se altera, o sistema emite um alerta para revisão humana. Segundo Nicolau Ramalho, fundador da empresa, os alertas vão para um sistema de gestão de vídeo, onde um operador decide qual atitude tomar, como acionar a polícia ou a equipe de segurança privada.

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A NoLeak informa ter mais de 5 mil câmeras conectadas e 100 clientes, entre indústrias e condomínios. A empresa afirma que a ferramenta reduz o cansaço visual dos operadores e permite monitorar até dez vezes mais câmeras com o mesmo número de funcionários. Outras empresas do setor, como Actuate, AxxonSoft e Coram, também oferecem soluções que prometem transformar câmeras convencionais em sistemas capazes de antecipar possíveis crimes.

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Os sistemas mais avançados de policiamento preditivo utilizam modelos de aprendizado de máquina — técnica de inteligência artificial em que o sistema aprende padrões a partir de grandes volumes de dados, sem depender apenas de regras programadas. Treinados com imagens de situações consideradas normais, esses modelos passam a identificar quando algo se desvia do padrão aprendido. Como exemplo, ao analisar uma via pública, o sistema aprende onde fica a pista e por quais faixas os veículos devem circular. Se um carro passar pela contramão ou pela calçada, ele sinaliza a anomalia.

Ramalho explica que o sistema precisa de cerca de duas semanas de análise dos metadados para formar uma base de dados suficiente para reconhecer o comportamento típico do local monitorado. Segundo ele, a ferramenta analisa apenas movimentações suspeitas de pessoas, e não suas características físicas. O sistema não identifica o rosto para analisar o comportamento, mas transforma a imagem em metadados para reconhecer padrões.

Além de reforçar a segurança patrimonial, a solução também pode verificar erros em linhas de produção e identificar funcionários fora do posto de trabalho, com o objetivo de evitar paradas não programadas e aumentar a eficiência das empresas. No entanto, o uso dessa tecnologia para fins de segurança levanta preocupações que vão além do ambiente corporativo.

Especialistas alertam que esse tipo de ferramenta pode restringir o direito de ir e vir dos cidadãos. Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), afirma que não se trata apenas de criminosos que serão identificados, mas também de cidadãos comuns que, a caminho do trabalho, podem passar por um sistema que cometa um erro. Para ela, há um crescimento na busca por ferramentas que prometem resolver problemas de segurança pública, como se existisse uma solução única para algo histórico da sociedade.

A falta de transparência é um dos principais problemas apontados por Fernanda. Ela destaca que não se conhece a eficiência real dessas ferramentas e que estudos apontam sistemas desse tipo como significativamente falhos. A avaliação da precisão e da ausência de vieses depende de estudos independentes sobre o funcionamento de cada sistema, o que nem sempre está disponível.

Experiências internacionais reforçam essas preocupações. Nos Estados Unidos, o sistema PredPol reunia dados históricos de crimes — como data, hora e local — para orientar rondas policiais em momentos sem ocorrências. O resultado foi um aumento da vigilância em bairros de renda familiar mais baixa e menor proporção de moradores brancos, com crescimento de abordagens policiais indevidas a moradores de conjuntos habitacionais, segundo reportagem do site The Markup. O PredPol deixou de ser usado em 2020 pela polícia de Los Angeles, após pressão de grupos ativistas que criticaram a falta de eficiência e a vigilância excessiva sobre comunidades negras e latinas.

No Brasil, ainda não existe uma lei específica para regulamentar sistemas de policiamento preditivo. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece regras para o tratamento de informações sensíveis, como a biometria facial, mas não abrange de forma detalhada o uso de inteligência artificial na segurança. Uma portaria publicada em 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública estabeleceu que as polícias podem usar inteligência artificial, desde que realizem revisões humanas em casos que apresentem riscos a direitos fundamentais.

O Congresso Nacional também discute um projeto de lei que pode classificar como de alto risco os sistemas de inteligência artificial usados pela polícia para analisar grandes volumes de dados e identificar padrões e perfis comportamentais. O texto, já aprovado no Senado e em tramitação na Câmara dos Deputados, prevê que ferramentas de alto risco devam ter supervisão humana, passar por avaliação de impacto, garantir o direito à explicação às pessoas afetadas e adotar medidas para evitar discriminações.

A aprovação desse marco regulatório pode definir os contornos legais para o uso de tecnologias preditivas no Brasil, estabelecendo limites entre a inovação em segurança e a proteção de direitos individuais. Especialistas defendem que qualquer sistema desse tipo deve ser acompanhado de estudos independentes sobre sua eficácia e de mecanismos de transparência que permitam à sociedade avaliar seus impactos.

Enquanto a regulação não avança, empresas continuam a adotar ferramentas de inteligência artificial para reforçar a segurança de suas instalações. O debate sobre os limites éticos e legais do policiamento preditivo permanece aberto, especialmente em um país onde a segurança pública é uma das principais preocupações da população e onde casos de vigilância indevida podem ter consequências graves para cidadãos que não cometeram crimes.

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