Robôs humanoides ganham força na corrida tecnológica entre China e Estados Unidos
O desenvolvimento de robôs humanoides deixou de ser exclusividade dos laboratórios e avança com força rumo à aplicação industrial e, futuramente, doméstica. A aposta nesse formato se justifica pela possibilidade de interação mais natural com humanos, versatilidade de tarefas, mobilidade em ambientes projetados para pessoas e capacidade de substituir trabalhadores em atividades perigosas. Atualmente, esses robôs operam principalmente em fábricas, centros de distribuição e armazéns, executando funções repetitivas ou fisicamente desgastantes, como transporte de caixas, movimentação de peças e abastecimento de linhas de produção. Testes também ocorrem em áreas como atendimento, saúde, pesquisa e serviços domésticos, embora essas aplicações ainda sejam bastante experimentais.
Nos Estados Unidos, o setor ganhou impulso significativo após os avanços recentes na área de inteligência artificial. Em junho de 2024, o robô Digit, desenvolvido pela Agility Robotics, estreou em uma unidade logística. A empresa Figure AI estabeleceu parceria com a BMW e, após a implantação do modelo Figure 02 na linha de montagem em 2025, o modelo mais recente, o Figure 03, passou a operar em uma fábrica na Carolina do Sul. A montadora Hyundai, por sua vez, contou com o suporte do robô Atlas, fabricado pela Boston Dynamics, que também apareceu em jogos da Copa do Mundo.
Do lado chinês, os avanços igualmente chamam atenção. Robôs da AgiBot já atuam em linhas de produção de eletrônicos, enquanto o modelo Walker S, da UBTECH, foi testado na fábrica da montadora NIO. A mesma UBTECH também investe em humanoides ultrarrealistas voltados para companhia emocional e suporte na área da saúde. Mais recentemente, em julho, a Weave Robotics apresentou o Isaac 1, um robô que promete auxiliar em tarefas domésticas por cerca de 8 mil dólares, valor aproximado de 40 mil reais. A Tesla, nos Estados Unidos, anunciou em janeiro o encerramento da produção dos veículos Model S e Model X para redirecionar esforços à fabricação do Optimus, robô humanoide bípede projetado para executar desde trabalhos industriais até funções domésticas.
O tamanho desse mercado é objeto de diferentes projeções. Para 2026, analistas e consultorias estimam um valor entre 2 e 11 bilhões de dólares. Para os próximos dez anos, as previsões apontam um crescimento que pode variar de 35 a 200 bilhões de dólares. A consultoria Morgan Stanley foi ainda mais otimista e projetou que o setor deverá atingir 5 trilhões de dólares até 2050, considerando as cadeias de suprimentos, além de serviços de reparo, manutenção e suporte. A estimativa é que mais de 1 bilhão de humanoides estejam em uso até a metade do século.
Segundo a Morgan Stanley, cerca de 90% dos robôs humanoides deverão ser destinados a tarefas repetitivas, principalmente na indústria e no comércio. O uso doméstico será mais restrito, com projeção de 80 milhões de unidades até 2050. A China deverá liderar o mercado global com 302 milhões de robôs, contra 78 milhões nos Estados Unidos. No entanto, no segmento residencial, os americanos aparecem à frente: estima-se que 15 milhões de humanoides estejam presentes em cerca de 10% dos lares norte-americanos, enquanto na China seriam 4 milhões, equivalente a 3% das residências.
Para que os humanoides ganhem popularidade, no entanto, a redução de preços é um fator essencial. Atualmente, uma das principais empresas chinesas do setor é a Unitree, que comercializa o modelo G1, um humanoide mais simples, por 13.500 dólares. O modelo mais avançado, o H1, está na faixa de 90 mil dólares. A China também tem utilizado eventos de grande visibilidade para demonstrar seus avanços. Em fevereiro, robôs humanoides fabricados no país foram destaque no Festival da Primavera da CCTV, o programa de televisão mais assistido no país, onde realizaram apresentações de dança e artes marciais durante as comemorações do Ano Novo Lunar.
Além disso, em agosto do ano passado, a China sediou os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, evento que ficou conhecido como as Olimpíadas de Robôs. Centenas de máquinas, representando 280 equipes e empresas vindas de 16 países, participaram da competição com o objetivo de demonstrar os avanços do setor. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a Tesla reforçou sua aposta ao redirecionar recursos produtivos para o desenvolvimento do Optimus, sinalizando que a disputa entre os dois países pelo domínio da robótica humana deve se intensificar nos próximos anos.