que os gastos com saúde nos Estados Unidos atingiram 5,3 trilhões de dólares em 2024, segundo os Centers for Medicare & Medicaid Services, enquanto a escassez de profissionais continua pressionando hospitais em todo o país.
A proposta central da Bunkerhill é enfrentar a distância entre o que os sistemas de saúde desejam fazer pelos pacientes e o que suas equipes têm tempo de executar. Segundo Nishith Khandwala, cofundador e CEO da empresa, a medicina avançou mais rápido do que a capacidade operacional do sistema de saúde. Na visão dele, cada grande hospital possui mais oportunidades de melhorar desfechos clínicos do que sua força de trabalho consegue endereçar, e os chamados agentes de IA, programas de inteligência artificial capazes de executar tarefas de forma autônoma, podem ajudar a transformar essas ideias em realidade.
A plataforma Carebricks se diferencia por permitir que os próprios hospitais construam seus agentes de IA, em vez de adquirirem um produto pronto e engessado. Entre os casos de uso estão agentes que analisam imagens de cardiologia em busca de sinais precoces de doenças cardíacas, sinalizando pacientes que precisam de acompanhamento. Outros agentes lidam com autorizações prévias de procedimentos ou mantêm atualizados os dados de registros clínicos. A plataforma também é aplicada em tarefas administrativas que raramente aparecem nos discursos sobre IA, mas que consomem horas preciosas das equipes todos os dias. Hoje, a Cleveland Clinic, a University of Texas Medical Branch (UTMB) e a Intermountain Health já utilizam a Carebricks em ambiente de produção.
A motivação da Khosla Ventures para entrar na rodada foi justamente responder a uma pergunta central de qualquer executivo hospitalar: o software de IA roda de fato dentro de um hospital em funcionamento? O fundador da gestora, Vinod Khosla, afirmou que o gargalo da IA em saúde nunca foi a tecnologia em si, mas conseguir que um sistema de saúde a colocasse em operação. Segundo ele, a Bunkerhill fechou essa lacuna, facilitando a adoção da inteligência artificial em instituições que levariam anos para alcançá-la por conta própria.
A UTMB oferece o retrato mais concreto do que significa tirar a IA da fase de piloto. A instituição já opera mais de 20 agentes ativos na Carebricks, abrangendo áreas clínicas, operacionais e administrativas, conforme explicou o médico Peter McCaffrey, Chief AI Officer da UTMB. No primeiro mês de funcionamento na universidade, um agente de detecção de cálcio coronariano, baseado em um algoritmo aprovado pela FDA, a agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, identificou um paciente com risco iminente de infarto. A cardiologia confirmou o diagnóstico e realizou uma cirurgia de triplo bypass. A equipe de cuidado atribui a detecção precoce à decisão de salvar a vida do paciente.
Outros resultados relatados pela UTMB incluem um agente de triagem em nefrologia que prioriza pacientes por gravidade, escalando casos urgentes e direcionando os demais para telemedicina. Segundo a instituição, o tempo médio de espera por um especialista caiu mais de 50%. Já um agente dedicado a nódulos pulmonares acompanha achados incidentais em tomografias computadorizadas até o acompanhamento adequado, com resposta 80% mais rápida em casos urgentes, duplicação da taxa de seguimento conforme diretrizes clínicas e redução do trabalho manual dos coordenadores.
Apesar dos números operacionais, é importante destacar que se trata de resultados informados pela própria instituição e pela Bunkerhill, sem auditoria independente. Os dados refletem as condições específicas da UTMB, não uma garantia de que outros hospitais obterão resultados semelhantes. Além disso, a Bunkerhill não publicou dados sobre a frequência de falsos positivos do agente coronariano nem sobre seu desempenho em populações de pacientes mais amplas ao longo do tempo.
Khandwala reconhece que ainda há muito a construir. A empresa pretende usar o novo financiamento para expandir a Carebricks em um leque maior de aplicações clínicas e operacionais, ao mesmo tempo em que desenvolve estruturas de governança, monitoramento e salvaguardas. McCaffrey, da UTMB, afirma que o impacto sobre o cuidado ao paciente já é significativo e que a instituição está apenas no começo do que se torna possível ao operar com IA agentica em larga escala.
A questão da governança, porém, permanece em aberto. Uma plataforma que permite ao departamento de nefrologia criar seu próprio agente de triagem também transfere para esse departamento a responsabilidade sobre os ajustes e as consequências do funcionamento da ferramenta. Conselhos administrativos de hospitais que consideram implantações desse tipo precisarão responder a perguntas sobre atribuição de responsabilidade legal, frequência de monitoramento e procedimentos a serem adotados quando o julgamento de um agente e o julgamento de um clínico divergirem, antes de aprovar a expansão em escala.
Com 20 agentes já em operação na UTMB, a Bunkerhill possui um caso de referência que poucos concorrentes conseguem igualar. O quanto esse número se sustentará como sinal para o restante do setor dependerá de como a UTMB e as demais instituições que adotam a Carebricks lidarão com a governança à medida que a quantidade de agentes em produção continuar crescendo.