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Desenvolvimento Digital ou Extrativismo: O Brasil na Encruzilhada dos Data Centers

11/07/2026
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A corrida dos data centers no Brasil trava entre ambição bilionária e riscos socioambientais

O Brasil vive um momento decisivo na construção de sua infraestrutura digital. Prédios de concreto com fachadas espelhadas surgem em pontos estratégicos do interior de São Paulo, do Sul e do Nordeste, abrigando estruturas pesadas que sustentam a inteligência artificial e os serviços de nuvem. São os data centers, centrais físicas que armazenam e processam volumes massivos de dados, e que se tornaram peças fundamentais da economia digital. O país já conta com 206 instalações em operação, segundo o Data Center Map, com forte concentração na região Sudeste. São Paulo lidera o ranking nacional com 59 estruturas, seguida por Campinas, com 27, Rio de Janeiro, com 23, Porto Alegre, com 14, e Fortaleza, com 11.

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A anatomia de um data center é bastante diferente da ideia de uma "nuvem" digital etérea. Internamente, servidores de altíssima potência ficam empilhados em estruturas chamadas racks, conectados por uma teia de cabos e fibra óptica que liga o ambiente ao resto do planeta. Discos rígidos e unidades de estado sólido, como SSDs, garantem o armazenamento de longo prazo, enquanto geradores e baterias mantêm o funcionamento mesmo durante quedas de energia. O calor gerado pelos milhares de processadores exige sistemas robustos de ventilação e refrigeração, que vão desde ar-condicionado convencional até resfriamento líquido, no qual a água é bombeada diretamente sobre os componentes.

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A chegada da inteligência artificial elevou ainda mais o padrão dessas estruturas. Diferentemente dos data centers tradicionais, que utilizam unidades centrais de processamento (CPUs) para tarefas sequenciais, os data centers de IA exigem unidades de processamento gráfico (GPUs), chips capazes de dividir problemas massivos em milhares de partes executadas simultaneamente. Junto às GPUs, entram em cena chips especializados, como NPUs e TPUs, além de armazenamento ultra-rápido do tipo NVMe SSD e redes de altíssima largura de banda. Essas infraestruturas sustentam modelos avançados de linguagem, como ChatGPT, Claude e Gemini. A IBM estima que a demanda de eletricidade dessas centrais pode crescer entre 160% e 165% nos próximos anos, impulsionando a construção dos chamados data centers de hiperescala, complexos gigantescos que interconectam dezenas de milhares de servidores.

Foi nesse contexto que o Ministério da Fazenda apresentou, em maio de 2025, a Política Nacional de Data Centers (PNDC), usando como atrativo a matriz elétrica brasileira, 90% renovável. O coração da estratégia era o Redata, regime especial de tributação criado pela Medida Provisória nº 1.318/2025 para suspender por cinco anos impostos federais como IPI, PIS, Cofins e Imposto de Importação sobre a compra de servidores de alta performance, que representam a parte mais cara de um projeto de hiperescala. Em troca, as empresas deveriam operar com energia 100% limpa, seguir padrões de eficiência hídrica, investir 2% do valor incentivado em pesquisa e desenvolvimento local e reservar ao menos 10% de sua capacidade para o mercado interno.

O plano, porém, travou no Congresso. A Medida Provisória caducou no Senado em 25 de fevereiro de 2026, e o Projeto de Lei 278/26, que tentava salvar o benefício, parou na mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sob justificativa de falta de tempo hábil. Para Paulo Hubner, advogado especialista em IA, criou-se um vácuo jurídico justamente às vésperas da entrada em vigor da Reforma Tributária, que a partir de 2027 veda constitucionalmente a concessão de novos incentivos fiscais. Sem a desoneração, a carga tributária sobre hardware importado varia entre 30% e 36%, tornando o país pouco competitivo frente a vizinhos como a Argentina.

Mesmo com o impasse, o governo afirma que a estratégia macroeconômica segue viva dentro da Nova Indústria Brasil, na chamada Missão 4, voltada ao adensamento da cadeia digital. Como alternativa, aposta em linhas de financiamento, como o crédito de R$ 2 bilhões do BNDES para data centers verdes e os recursos do programa Mais Inovação. O secretário de Desenvolvimento Industrial do MDIC, Uallace Moreira Lima, garante que o espaço orçamentário de R$ 5,2 bilhões para bancar a renúncia fiscal está reservado no PLOA de 2026, mas esbarrou no Artigo 29 da LDO de 2026, que proíbe a criação de novos benefícios fiscais no ano corrente.

Enquanto Brasília discute o tema, bilhões de dólares privados continuam sendo injetados em novos complexos, motivados pela corrida global da IA generativa e pela "janela de treinamento" de modelos prevista para fechar em 2028. Marcio Aguiar, diretor da divisão Enterprise da Nvidia para a América Latina, afirma que países vizinhos já atraem a atenção de grandes corporações com políticas mais definidas e preços de energia mais competitivos.

O caso mais emblemático dessa expansão é o projeto no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, conduzido pela construtora brasileira Omnia WN Holding para uso da chinesa ByteDance, dona do TikTok. Com investimento estimado em US$ 39 bilhões ao longo de dez anos, o complexo ocupará 68 hectares e terá capacidade inicial de 200 megawatts de TI, com pico de 300 MW, energia suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes. Todo o processamento será voltado à exportação de dados, atendendo usuários fora do Brasil.

O licenciamento do projeto, conduzido pela Semace, autarquia ambiental estadual, está no centro de uma disputa. Em maio de 2026, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União emitiram recomendação conjunta apontando falhas e omissões, incluindo o consumo inicial estimado em seis milhões de litros de água para o sistema de resfriamento, numa região marcada por escassez hídrica. O terreno fica a apenas dois quilômetros da Lagoa do Cauípe e margeia a Terra Indígena Anacé, o que exigia, por força da Convenção 169 da OIT, uma Consulta Livre, Prévia e Informada aos povos originários. Em vez disso, a escuta foi tratada como condicionante após a emissão das licenças. Em abril de 2026, indígenas bloquearam rodovias em protesto, e em junho ocuparam as instalações da construtora, paralisando os trabalhos técnicos.

O episódio reacende o debate sobre o risco de um "colonialismo de dados", expressão usada pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) para descrever um modelo no qual o Brasil cede território, energia e água para que conglomerados internacionais exportem lucros. Segundo a pesquisadora Roberta Freire, do Idec, as contrapartidas previstas no Redata ainda são insuficientes para garantir soberania digital, já que 60% dos dados nacionais são processados no exterior, enquanto o projeto exige apenas 10% de capacidade dedicada ao mercado interno.

Para o especialista em tecnologia Arthur Igreja, o país precisa considerar também as deficiências estruturais na transmissão de energia e os efeitos locais dos data centers, que elevam tarifas residenciais nas regiões onde se instalam. De um lado, há a promessa de R$ 2 trilhões em investimentos privados na próxima década e o fortalecimento da soberania digital. De outro, o risco de esgotamento de recursos naturais e de atropelo a comunidades tradicionais. Na pressa de se vender como polo da inteligência artificial global, o Brasil caminha sobre uma linha tênue entre desenvolvimento e um extrativismo digital cujos dividendos podem não ficar em casa.

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