PUBLICIDADE

Brasileiros adotam IA no trabalho e temor de substituição recua

29/06/2026
12 visualizações
4 min de leitura
Imagem principal do post

Uma pesquisa Datafolha divulgada em junho de 2026 revelou que 24% dos brasileiros que conhecem a inteligência artificial já utilizam ferramentas como ChatGPT e Claude em suas atividades profissionais. O número representa um crescimento significativo em relação ao ano anterior, indicando que a incorporação dessas tecnologias no ambiente de trabalho avança de forma consistente no país. O ChatGPT é o assistente de inteligência artificial desenvolvido pela OpenAI, empresa de referência no setor, enquanto Claude é a ferramenta criada pela Anthropic, concorrente direta no mercado de modelos de linguagem.

Os dados do Datafolha, principal instituto de pesquisas de opinião do Brasil, mostram também uma mudança de percepção sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho. Entre os entrevistados que já ouviram falar de inteligência artificial, 49% afirmam não temer que a profissão que exercem seja substituída pelas máquinas. O resultado indica uma redução do medo em comparação com medições anteriores, quando a preocupação com a automação ocupava posição central no debate público sobre o tema.

Imagem complementar

Apesar da queda no temor geral, uma parcela praticamente equivalente ainda demonstra receio. Do total de respondentes familiarizados com o conceito de inteligência artificial, 48% afirmam temer que a tecnologia possa substituir suas atividades profissionais. A divisão quase exata entre os que temem e os que não temem a substituição revela uma sociedade ainda dividida sobre o tema, embora a tendência aponte para uma redução gradual da apreensão à medida que o contato com as ferramentas aumenta.

PUBLICIDADE

O crescimento no uso profissional de ferramentas de inteligência artificial reflete uma transformação que ocorre de baixo para cima no ambiente corporativo brasileiro. Ao contrário de mudanças tecnológicas anteriores, frequentemente impulsionadas pelas áreas de tecnologia da informação das empresas, a adoção de modelos de linguagem como o ChatGPT tem sido em grande parte individual. Profissionais de diversas áreas passaram a incorporar essas ferramentas em rotinas como redação de textos, análise de dados, programação, atendimento ao cliente e organização de tarefas administrativas.

A familiaridade crescente com a tecnologia parece estar diretamente ligada à redução do medo de substituição. À medida que mais profissionais passam a utilizar ferramentas de inteligência artificial no dia a dia, eles tendem a perceber as limitações e o papel complementar desses sistemas, em vez de encará-los como ameaças imediatas à própria ocupação. Esse movimento é consistente com o observado em outros mercados onde a adoção de tecnologias de automação avançou de forma similar.

A pesquisa do Datafolha revela, no entanto, que a aceitação da inteligência artificial pelos brasileiros não é irrestrita. Pelo contrário, ela é seletiva e condicional ao contexto de aplicação. A maioria dos entrevistados rejeita veementemente o uso de sistemas automatizados para tomar decisões em áreas consideradas sensíveis, como contratações de pessoal, decisões judiciais e diagnósticos ou tratamentos de saúde.

Essa rejeição a decisões automatizadas em áreas críticas reflete uma preocupação que vai além do medo de perda de emprego. Trata-se de uma inquietação ética e prática sobre a capacidade de algoritmos de lidar com nuances humanas, contextos individuais e responsabilidades morais. No caso de contratações, por exemplo, os entrevistados parecem temer que critérios automatizados reproduzam vieses e discriminem candidatos de forma invisível. No sistema de justiça, a preocupação se concentra na impossibilidade de um algoritmo ponderar circunstâncias atenuantes com a mesma profundidade que um juiz. Na saúde, o receio envolve a segurança de pacientes e a necessidade de supervisão médica qualificada.

Os números do Datafolha sugerem que os brasileiros estão desenvolvendo uma visão mais madura e diferenciada sobre a inteligência artificial. Em vez de uma aceitação incondicional ou uma rejeição total, a população parece distinguir entre usos que agregam valor ao trabalho humano e aplicações que poderiam remover o julgamento humano de decisões importantes. Essa postura está alinhada com debates que ocorrem em fóruns internacionais sobre governança de inteligência artificial, onde especialistas discutem como regular aplicações de risco sem inviabilizar o desenvolvimento tecnológico.

O fato de 24% dos brasileiros familiarizados com a tecnologia já a utilizarem no trabalho tem implicações significativas para o mercado corporativo. Empresas que ainda não estabeleceram diretrizes sobre o uso de ferramentas como ChatGPT e Claude correm o risco de ter funcionários utilizando essas tecnologias sem supervisão adequada, o que pode gerar riscos relacionados à privacidade de dados, segurança da informação e qualidade dos resultados produzidos.

A pesquisa também ajuda a dimensionar a velocidade da adoção de inteligência artificial no Brasil em comparação com outros países. O crescimento do uso profissional em relação ao ano anterior indica que o Brasil acompanha a tendência global de incorporação dessas tecnologias, ainda que com particularidades ligadas ao perfil do mercado de trabalho nacional e às desigualdades de acesso à tecnologia.

Os dados do Datafolha desenham um cenário de transição. O medo de substituição, embora presente em quase metade dos entrevistados, perde força à medida que o contato prático com as ferramentas se amplia. Ao mesmo tempo, a rejeição a aplicações sensíveis mostra que a sociedade brasileira estabelece limites claros para a atuação de sistemas automatizados em decisões com impacto direto sobre a vida das pessoas. A combinação desses dois movimentos aponta para um futuro no qual a inteligência artificial tende a ser vista como ferramenta de apoio e não como substituto do julgamento humano nas questões que mais importam.

PUBLICIDADE

Leitura recomendada

Comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!