IplanRio lança modelo de IA de código aberto e enfrenta polêmica por possível plágio
O Rio 3.5 Open, modelo de linguagem de grande porte desenvolvido pela IplanRio, empresa de tecnologia vinculada à Prefeitura do Rio de Janeiro, tornou-se o centro de uma polêmica no setor de inteligência artificial. Apresentado como um LLM (Large Language Model, ou modelo de linguagem de grande porte) de código aberto, o projeto chamou atenção pelo bom desempenho em testes de benchmark, mas acabou sendo alvo de acusações de omissão e plágio por parte de uma empresa chinesa.
O modelo foi divulgado sem grande alarde, mas rapidamente ganhou destaque nas redes sociais entre as comunidades que acompanham o mercado de inteligência artificial. Um dos motivos foi o resultado expressivo em testes de benchmark publicados na plataforma Hugging Face, ambiente voltado ao compartilhamento de modelos de IA. Nesses testes, o Rio 3.5 Open apresentou desempenho semelhante ou superior ao de concorrentes conhecidos, como o Qwen, da chinesa Alibaba, e o DeepSeek, o que chamou a atenção por se tratar de um modelo associado a uma instituição pública brasileira.
A repercussão positiva levou muitos a acreditarem que o Rio 3.5 poderia ser um modelo fundacional, ou seja, um modelo com parte do treinamento feito do zero, em vez de apenas um ajuste sobre um modelo já existente. Esse tipo de conquista seria relevante para a esfera pública, especialmente por representar uma iniciativa de código aberto em um segmento dominado por grandes corporações internacionais.
A polêmica começou quando pesquisadores passaram a analisar os dados de treinamento divulgados pela IplanRio. A documentação mencionava o uso do Qwen 3.5 como base, mas não citava o Nex-N2 Pro, modelo desenvolvido pela chinesa Nex. A empresa responsável pelo N2 Pro decidiu investigar a fundo e descobriu que o Rio 3.5 combinava os pesos do Qwen e do Nex em proporções específicas, em uma técnica conhecida como fusão de modelos ou model merge, que consiste em mesclar parâmetros de modelos diferentes para criar um novo.
A análise revelou que a combinação seguia uma proporção aproximada de 0,6 do Nex N2 Pro e 0,4 do Qwen 3.5. Outro ponto destacado pela Nex foi que, ao remover o prompt de sistema — conjunto de configurações que define como a IA deve se comportar e responder —, o modelo se identificava como uma criação da própria Nex. Diante disso, a empresa chinesa acusou a IplanRio de omissão e falta de atribuição, especialmente por se tratar de um projeto de código aberto, no qual a transparência sobre as bases utilizadas é considerada um princípio fundamental da comunidade.
Em resposta às críticas, a IplanRio publicou um comunicado nas redes sociais afirmando que o material disponibilizado no Hugging Face era uma versão preliminar do projeto. A empresa atribuiu o problema a uma falha humana e operacional durante a etapa de publicação dos arquivos. Segundo a nota, a versão postada ainda não havia passado pelo processo de pós-treinamento e refinamento conduzido pela equipe técnica, etapa que incluiria ajustes para adequar o modelo à realidade do município do Rio de Janeiro.
Em nota enviada à imprensa, a IplanRio detalhou que o desenvolvimento do Rio 3.5 utiliza a técnica de fusão de pesos, combinando as arquiteturas públicas do Qwen 3.5 e do Nex-N2 Pro, ambas regidas por licenças abertas que autorizam modificação e aprimoramento. A empresa justificou a escolha pela alta eficiência e pela responsabilidade fiscal, argumentando que a abordagem permite entregar resultados robustos com baixo custo de processamento computacional para o município.
Ainda de acordo com a nota, o cronograma previa que, após a composição inicial das arquiteturas abertas, o modelo passasse por um processo de pós-treinamento e refinamento nativo para sua customização. Contudo, devido ao erro operacional, foram publicados os arquivos de testes da fusão preliminar em vez da versão final. A IplanRio afirmou que, assim que a inconsistência foi identificada pela comunidade de pesquisadores, o arquivo descritivo do projeto foi atualizado para dar crédito ao modelo Nex-N2 Pro, corrigindo a omissão inicial. A empresa também informou que os fluxos internos de governança foram revisados e que a versão final do modelo seria enviada em breve.
A IplanRio reafirmou seu compromisso com a inovação na gestão pública e com o respeito às normas da comunidade de software livre, destacando que o Rio 3.5 foi concebido para gerar retornos práticos ao município, como a melhoria de sistemas de atendimento, triagem de chamados de zeladoria e suporte à saúde, buscando maior eficiência na prestação de serviços ao cidadão carioca.
O episódio coloca em debate a importância da atribuição de crédito no ecossistema de código aberto e levanta questionamentos sobre os procedimentos de publicação de modelos de inteligência artificial por parte de instituições públicas. Enquanto a IplanRio trata o caso como um erro operacional isolado, a Nex sustenta que a omissão comprometeu a transparência esperada em projetos colaborativos.