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IPOs de SpaceX, OpenAI e Anthropic levantam paralelo com bolha pontocom

23/05/2026
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O mercado financeiro acompanha com cautela uma onda de aberturas de capital de empresas de tecnologia de altíssima capitalização que pode indicar um possível topo do ciclo atual. Analistas ouvidos pela CNBC traçam paralelos com o período da bolha das pontocom, no fim dos anos 1990, diante dos planos de companhias como SpaceX, OpenAI e Anthropic para estrearem nas bolsas ainda em 2026. As três empresas ainda não registram lucro anual, e os modelos de negócio delas seguem com baixa transparência financeira, o que tem levado parte do mercado a recomendar cautela aos investidores.

A mais adiantada entre elas é a SpaceX. A empresa divulgou na última quinta-feira o documento regulatório S-1 confirmando a abertura de capital para 12 de junho, com valores alinhados a uma avaliação pretendida de US$ 1,75 trilhão na Nasdaq. O montante, caso confirmado, tornaria a operação o maior IPO da história. A companhia é liderada por Elon Musk, que mantém 85% dos direitos de voto, o que limita a governança corporativa compartilhada com novos acionistas.

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Os números financeiros da SpaceX, revelados no documento, revelam um quadro de prejuízos expressivos. No trimestre mais recente, a empresa registrou perda líquida de US$ 4,28 bilhões, somando-se a perdas de US$ 4,94 bilhões ao longo de 2025. A divisão Starlink gerou US$ 3,26 bilhões em receita no período, o que representa 69% do faturamento total. Já o negócio espacial acumulou prejuízo operacional de US$ 619 milhões, enquanto a unidade de inteligência artificial teve perdas de US$ 2,5 bilhões.

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No próprio prospecto, a SpaceX admitiu possuir histórico de perdas líquidas e alertou que pode não alcançar lucratividade no futuro. A companhia também ressaltou que parte relevante de seu valor de mercado depende de tecnologias descritas como novas e não testadas, exigindo investimentos elevados ao longo de vários anos antes que produtos e serviços de IA se tornem rentáveis.

A avaliação pretendida pela SpaceX tem sido questionada por especialistas. Dan Coatsworth, chefe de mercados da corretora AJ Bell, observou que um valuation de US$ 1,75 trilhão colocaria a empresa negociando a cerca de 67 vezes suas vendas. O múltiplo é aproximadamente três vezes superior ao da NVIDIA com base no último ano fiscal, o que revela uma expectativa de crescimento bastante agressiva embutida no preço.

Coatsworth também destacou que pouco se conhecia sobre as finanças da SpaceX antes do documento S-1, dada sua condição de empresa privada e o controle concentrado de Musk. O analista ponderou que o status de unicórnio global da companhia não elimina os riscos associados a uma operação desse porte.

Paralelamente, duas das principais empresas do setor de inteligência artificial também se preparam para abrir capital. A OpenAI, criadora do ChatGPT e comandada por Sam Altman, confirmou planos de IPO em 2026. A Anthropic, empresa responsável pelo Claude e presidida por Dario Amodei, deve seguir o mesmo caminho. Ambas ainda não registram lucro anual, embora a Anthropic possa apresentar seu primeiro trimestre com resultado positivo nos próximos relatórios financeiros.

A SpaceX, por sua vez, considera a OpenAI uma das principais concorrentes na corrida pela liderança em inteligência artificial. A empresa de Musk tem investido pesadamente em sua divisão de IA, como indicam os prejuízos recentes dessa unidade. A competição entre as duas pode se intensificar após ambas estarem listadas em bolsas, com maior exposição pública de seus resultados.

John Blank, estrategista-chefe de ações da Zacks, classificou o cenário como um potencial topo de mercado. Durante participação no programa Squawk Box Europe, da CNBC, ele lembrou que grandes IPOs costumam surgir próximos aos picos de ciclo, algo observado em 1999 durante a corrida das empresas de internet para abrir capital. Naquela ocasião, a euforia em torno de novas ofertas públicas acabou seguida por uma forte correção.

William de Gale, gestor de portfólio da BlueBox Asset Management, foi mais direto ao avaliar o impacto dos IPOs de IA. Ele afirmou que, se OpenAI e Anthropic não conseguirem gerar dinheiro de forma consistente, toda a narrativa de valorização do setor pode ruir. O gestor defendeu que a abertura de capital dessas empresas pode expor fragilidades financeiras que hoje permanecem ocultas sob o status privado.

De Gale acrescentou que a divulgação mais detalhada dos balanços pode revelar a distância entre o crescimento acelerado de receitas e a capacidade efetiva de transformar esse crescimento em rentabilidade. O momento em que os números saírem do papel, segundo ele, pode funcionar como um limite para o ciclo atual de valorização do setor.

O Deutsche Bank também externou preocupações por meio de uma nota publicada na mesma quinta-feira. O estrategista Adrian Cox ressaltou que ainda será necessário observar como os mercados públicos avaliarão empresas como a OpenAI quando elas apresentarem seus balanços e explicarem com mais clareza a economia por trás de seus modelos de negócio. A transparência, ou a falta dela, será um fator determinante na precificação dessas companhias.

O conjunto dessas operações coloca o mercado diante de um dilema. Por um lado, empresas de tecnologia com potencial transformador atraem capital volumoso e interesse global. Por outro, a ausência de lucratividade comprovada, a concentração de poder decisório e as expectativas de valuation elevado introduzem riscos significativos para investidores. O debate sobre a sustentabilidade financeira do setor de inteligência artificial tende a ganhar mais força à medida que os números dessas companhias se tornem públicos nos próximos meses.

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