Europa tem apenas dois anos para garantir soberania em inteligência artificial
O continente europeu corre o risco de se tornar dependente estrutural das empresas de inteligência artificial dos Estados Unidos caso não acelere investimentos em infraestrutura e tecnologia nos próximos dois anos. O alerta foi feito peloCEO da Mistral, startup francesa considerada uma das principais rivais da OpenAI no cenário europeu, durante audiência sobre soberania digital realizada na Assembleia Nacional da França.
Arthur Mensch, executivo de 33 anos, afirmou que a definição do futuro europeu no setor de inteligência artificial será decidida nesse curto período de tempo. Para ele, o continente não enfrenta apenas o risco de perder o controle sobre os modelos de IA, mas também sobre toda a infraestrutura necessária para operá-los, incluindo acesso a energia elétrica, chips semicondutores e centros de dados.
Durante seu pronunciamento, Mensch utilizou uma expressão forte para descrever o cenário que a Europa pode enfrentar. "Assim que o fornecimento for monopolizado por atores americanos, de repente não teremos mais fornecimento e não poderemos mais transformar elétrons em tokens", declarou o executivo, em referência direta ao processo pelo qual o poder computacional é utilizado para gerar respostas por sistemas de inteligência artificial.
O fundador da Mistral Alertou que, caso a Europa continue importando serviços digitais norte-americanos sem desenvolver sua própria infraestrutura tecnológica, poderá se tornar um estado vassalo das grandes empresas americanas de tecnologia. "Se não nos movermos rápido o suficiente, acabaremos em uma situação em que não teremos mais escolha", completou Mensch. "Em um mundo onde você importa todos os seus serviços digitais dos Estados Unidos, você não tem influência sobre os Estados Unidos."
A corrida global pela liderança em inteligência artificial está cada vez mais atrelada ao controle sobre recursos físicos essenciais. Na avaliação do CEO da Mistral, empresas norte-americanas já estão garantindo acesso estratégico a energia, semicondutores e capacidade de processamento em data centers. Mensch Alertou que os investimentos americanos devem alcançar um trilhão de dólares somente no próximo ano, o que pode deixar a Europa em posição de dependência tecnológica permanente.
"As pessoas que controlam os chips, que controlam a energia elétrica e que possuem acesso massivo aos recursos computacionais são quem vence essa disputa", afirmou o executivo durante a audiência. Ele lembrou que os Estados Unidos têm mobilizado recursos financieros muito superiores aos disponíveis no continente europeu para o desenvolvimento de inteligência artificial.
Fundada em 2023 por ex-pesquisadores de empresas como Meta e DeepMind, a Mistral se tornou uma das startups de inteligência artificial mais bem financiadas da Europa, alcançando uma avaliação de aproximadamente 13,6 bilhões de dólares. A empresa tem posicionado a defesa da soberania digital europeia como parte central de sua estratégia de código aberto e acredita que governos demonstram interesse crescente em sistemas de IA que possam controlar sem depender das gigantes americanas de tecnologia.
Recentemente, a startup francesa anunciou uma parceria com o Groupe Caisse des Dépôts, instituição pública de investimentos apoiada pelo Estado francês. O acordo tem como foco o fortalecimento da infraestrutura europeia de inteligência artificial generativa e de computação com GPUs, que são unidades de processamento gráfico essenciais para o treinamento de modelos de IA.
A Mistral também revelou planosambiciosos de ampliar sua capacidade computacional. A companhia pretende construir até 2029 uma capacidade equivalente a um gigawatt para aplicações de inteligência artificial, o que representa um investimento bilionário em infraestrutura tecnológica. Ainda assim, Mensch reconhece que o continente inteiro precisará de investimentos ainda maiores para competir no cenário global.
O executivo também aproveitou a oportunidade para criticar o cenário regulatório europeu e a fragmentação dos mercados de capital da região, características que ele considera barreiras significativas para o crescimento de startups quando comparadas ao ambiente de investimentos dos Estados Unidos. Segundo ele, essas condições dificultam que empresas europeias se tornem competitivas frente aos gigantes norte-americanos.