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IA no Mercado de Trabalho: O Fim do Primeiro Emprego para os Jovens Brasileiros

20/04/2026
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Inteligência artificial já reduz emprego e renda de jovens brasileiros, aponta pesquisa da FGV

Um estudo conduzido pelo pesquisador Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, comprovou que a inteligência artificial já exerce um impacto negativo sobre a renda e a empregabilidade dos jovens brasileiros. A investigação, baseada em dados oficiais do IBGE, revelou que brasileiros entre 18 e 29 anos que atuam em ocupações mais expostas a essa tecnologia têm aproximadamente 5% menos de chance de estarem empregados do que teriam caso o nível de exposição à inteligência artificial não existisse. Além disso, a renda desse grupo caiu cerca de 7% após a popularização dessas ferramentas no mercado de trabalho.

Os resultados foram obtidos a partir de informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, levantamento periódico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A metodologia do estudo consistiu na comparação de grupos de trabalhadores com perfis semelhantes em dois momentos distintos: o ano de 2022, anterior ao lançamento do ChatGPT, plataforma de inteligência artificial generativa que popularizou o acesso a esse tipo de tecnologia, e o ano de 2025, quando essas ferramentas já haviam se disseminado em larga escala. A diferença fundamental entre os grupos avaliados residia no nível de exposição às capacidades da inteligência artificial em suas respectivas profissões.

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Parte dos trabalhadores analisados atuava em setores onde a presença da inteligência artificial é mais intensa, como os serviços de informação, comunicação e o mercado financeiro. O restante integrava ocupações com menor exposição tecnológica. Ao cruzar os dados, Duque constatou que os profissionais mais expostos registraram perdas significativas em termos de ocupação e remuneração após a popularização da inteligência artificial generativa, enquanto os demais grupos apresentaram variação praticamente nula.

A explicação para esse desfecho reside na natureza das atividades que costumam marcar o início da trajetória profissional. Segundo o pesquisador, a inteligência artificial demonstra eficiência especial na execução de tarefas de entrada, como funções administrativas, de apoio e serviços básicos. Essas ocupações, que historicamente funcionam como porta de acesso para jovens recém-chegados ao mercado, são justamente aquelas mais passíveis de automação por sistemas capazes de processar textos, analisar dados e realizar rotinas padronizadas de forma rápida e com custo reduzido.

Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence, corrobora essa avaliação ao observar que a inteligência artificial tem automatizado principalmente rotinas mais repetitivas, característica típica das posições iniciais de carreira. O pesquisador destaca que as funções de nível de entrada tendem a ser as mais vulneráveis à substituição tecnológica, uma vez que podem ser desempenhadas por algoritmos com maior velocidade e menor custo do que por trabalhadores humanos, o que reduz a demanda por profissionais nesses papéis.

Em relação à queda de renda, Duque avalia que a tecnologia vem diminuindo o valor das tarefas mais padronizadas, que são aquelas que sustentam boa parte das oportunidades de primeiro emprego em carreiras administrativas e de suporte. Quando uma atividade que antes exigia um trabalhador passa a ser realizada por um sistema automatizado, a oferta de vagas nessa função se reduz e os salários praticados tendem a ser pressionados para baixo, refletindo diretamente no bolso dos jovens que dependem dessas posições para ingressar ou se manter no mercado.

Um ponto relevante do levantamento é que o impacto sobre as demais faixas etárias se mostrou bastante reduzido. De acordo com Duque, os trabalhadores mais velhos, em geral, ocupam funções que envolvem tomada de decisão e responsabilidades estratégicas, tarefas que a inteligência artificial ainda não consegue realizar de forma autônoma e confiável. A tecnologia disponível atualmente opera com maior competência em atividades rotineiras e padronizadas, o que explica a disparidade no efeito entre as diferentes gerações de profissionais.

O estudo de Duque se ancora em um levantamento anterior realizado pelos pesquisadores Fernando de Holanda Barbosa Filho, Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, também da FGV IBRE. Utilizando uma metodologia da Organização Internacional do Trabalho, esse trabalho estimou que cerca de 30 milhões de trabalhadores no Brasil estavam em ocupações com algum nível de exposição à inteligência artificial generativa no terceiro trimestre de 2025. Esse contingente equivale a aproximadamente 29,6% da população ocupada do país, um número que evidencia a escala da transformação em curso.

Dentro desse universo, cerca de 5,2 milhões de trabalhadores encontravam-se no nível mais alto de exposição à tecnologia. Esse grupo concentra-se sobretudo entre os mais jovens, com maior escolaridade, residentes na região Sudeste e atuantes no setor de serviços, com destaque para as áreas de informação, comunicação e serviços financeiros. O recorte demográfico reforça a conclusão de que os primeiros efeitos concretos da automação por inteligência artificial estão sendo sentidos precisamente por aqueles que estão começando suas carreiras em setores de maior intensidade tecnológica.

A inteligência artificial generativa, tipo de sistema capaz de produzir textos, imagens e análises a partir de comandos em linguagem natural, democratizou o acesso a ferramentas de automação cognitiva de uma forma inédita. O lançamento de plataformas como o ChatGPT, no final de 2022, tornou essas capacidades disponíveis para empresas de todos os portes, acelerando processos que antes dependiam de profissionais contratados especificamente para realizar tarefas como redação de documentos, organização de planilhas e atendimento inicial a clientes.

O pesquisador, no entanto, faz um alerta importante sobre a interpretação dos resultados. Ele destaca que as estimativas devem ser lidas com cautela, pois o período de observação é ainda curto e as informações disponíveis sobre o grau de exposição de cada profissão à inteligência artificial são de caráter preliminar. Não se trata, portanto, de um diagnóstico definitivo, mas sim de um indicativo robusto de que os efeitos já são perceptíveis e mensuráveis na economia brasileira.

Mesmo com essas ressalvas, Duque considera preocupante o impacto já verificado sobre a empregabilidade juvenil. Ele acrescenta que, ao longo do tempo, espera-se que todos os tipos de trabalho sejam afetados em diferentes níveis, o que coloca na agenda do país a necessidade de discutir políticas de adaptação da força de trabalho, requalificação profissional e estratégias para minimizar os efeitos negativos sobre as novas gerações que buscam inserção no mercado de trabalho brasileiro.

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