Google cede e cria ferramenta para sites recusarem uso de conteúdo em recursos de IA na Busca
O Google anunciou que está desenvolvendo uma nova funcionalidade que permitirá aos proprietários de sites recusarem o uso de seus conteúdos nos recursos de inteligência artificial generativa da Busca, sem que isso afete sua visibilidade nos resultados de busca tradicionais. A medida foi apresentada como resposta à consulta pública aberta em janeiro pela Autoridade de Concorrência e Mercados do Reino Unido, órgão regulador que tem investigado práticas de concorrência e transparência nos serviços de busca e publicidade da big tech americana.
A proposta do Google surge em um momento de crescente pressão sobre as grandes empresas de tecnologia que utilizam conteúdos editoriais para alimentar seus sistemas de inteligência artificial. Os AI Overviews, resumos gerados por IA que aparecem no topo dos resultados de busca, têm causado impacto significativo no tráfego dos sites publishers, que enfrentam queda nas taxas de cliques à medida que os usuários encontram respostas diretas sem necessidade de acessar as páginas originais.
Atualmente, o Google oferece ferramentas para bloquear conteúdos em resumos gerados por inteligência artificial, como a tag nosnippet. No entanto, a limitação dessas ferramentas está no fato de que, para excluir um site dos resumos de IA, era necessário abrir mão do conteúdo na busca tradicional. A nova funcionalidade prometida pelo Google permitiria, pela primeira vez, bloquear exclusivamente os recursos de IA generativa, mantendo a presença nos resultados orgânicos tradicionais.
A empresa defendeu publicamente seus sistemas de classificação e rejeitou acusações de monopólio. Em comunicado, o Google afirmou que seus sistemas são projetados para mostrar os resultados mais relevantes e de maior qualidade, e que recursos como os AI Overviews tornam os links para as fontes originais mais proeminentes para os usuários. A companhia também criticou algumas propostas enviadas por terceiros à reguladora britânica, argumentando que carecem de embasamento técnico e que certas medidas poderiam expor os sistemas a manipulações e dificultar o combate a conteúdos spams.
O mercado editorial britânico, porém, considera a concessão insuficiente. A Publishers Association, entidade que representa editores do Reino Unido, pediu a separação completa dos rastreadores de busca do Google em relação aos seus rastreadores de inteligência artificial. A entidade aponta que serviços de referência acadêmica registraram queda de dezenove por cento nas taxas de cliques, atribuindo esse fenômeno diretamente à conduta da empresa norte-americana. A reclamação refleja uma insatisfação mais ampla do setor de mídia, que enxerga nos resumos de IA uma apropriação não compensada de conteúdos produzidos por jornalistas e редакторов.
Uma questão permanece sem resposta clara: o Google aplicará alguma penalidade aos sites que optarem por ficar de fora dos resumos de inteligência artificial na classificação da busca tradicional? Essa ambiguidade preocupa editores, que temem que a exclusão voluntária dos recursos de IA possa resultar em posicionamento desfavorável nos resultados orgânicos, criando um sistema de incentivos que torna a opção praticamente inviável para quem deseja manter relevância.
No Brasil, o cenário regulatório segue uma trajetória semelhante. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica abriu um inquérito para investigar se o Google abusa de posição dominante ao exibir trechos de reportagens nos resultados de busca. A discussão evoluiu para abordar o impacto dos Resumos de IA na audiência de sites e jornais, bem como possíveis consequências para a qualidade da informação disponível ao público. O caso brasileiro acompanha de perto os desdobramentos da investigação britânica, que pode servir de precedente para futuras regulações em outros mercados.
A situação expõe uma tensão fundamental no modelo atual da internet: enquanto os mecanismos de busca sempre dependeram de conteúdo de terceiros para funcionar, a inteligência artificial generativa representa uma mudança qualitativa, pois não apenas indexa informações, mas as sintetiza e reformula, potencialmente substituindo a necessidade de visitação aos sites originais. Essa mudança estrutural coloca em xeque modelos de negócios que dependem de tráfego e receitas publicitárias baseadas em visualizações de página.
Os próximos meses serão decisivos para definir como a relação entre plataformas de busca e criadores de conteúdo será regulamentada. A CMA deve analisar a proposta do Google e decidir se as medidas oferecidas são suficientes ou se novas exigências serão impostas à empresa. Paralelamente, a pressão de entidades editoriais e reguladores em diversos países tende a intensificar o debate sobre direitos autorais, compensação por uso de conteúdo e transparência nos algoritmos de inteligência artificial que increasingly determinam o acesso à informação na era digital.