A Comissão Europeia está testando internamente um software de código aberto, desenvolvido na própria Europa, como alternativa para comunicação entre seus órgãos. O projeto em avaliação é baseado no protocolo Matrix, uma plataforma aberta e descentralizada para comunicação em tempo real que já permite troca de mensagens de texto, chamadas de voz e vídeo, além de oferecer criptografia de ponta a ponta e possibilidade de integração com outros serviços.
Matrix não depende de um único servidor como núcleo da rede, o que favorece arquitetura distribuída e interoperabilidade. Por trás do protocolo está a Matrix.org Foundation, uma organização sem fins lucrativos com sede no Reino Unido e em operação desde 2018. A tecnologia já é utilizada por entidades públicas em alguns países europeus, como Alemanha e França, o que mostra alguma adoção institucional no continente.
Segundo um representante da Comissão Europeia ouvido pelo veículo Euractiv, a implementação do Matrix está sendo considerada, por ora, como “uma solução alternativa e de backup”. Ou seja, não há, neste momento, uma intenção explícita de substituir imediatamente ferramentas como Microsoft Teams, Google Meet ou Zoom. Ainda assim, a iniciativa surge no contexto de um movimento mais amplo por “soluções digitais mais soberanas”, conforme relatado pelo mesmo representante — isto é, uma busca por dependência reduzida de tecnologias proprietárias, muitas vindas dos Estados Unidos.
A própria experiência da Comissão com alternativas ilustra a busca por opções distintas: o uso do Signal como sistema de backup não teve resultados totalmente satisfatórios, segundo os relatos. Se os testes do Matrix forem bem-sucedidos, a expectativa é de que o protocolo possa ganhar maior difusão entre órgãos públicos europeus, ampliando a oferta de ferramentas abertas e controladas localmente.
O episódio também dialoga com iniciativas nacionais recentes, como a mudança da França, que adotou o Visio — uma solução aberta desenvolvida para os servidores públicos do país — em vez de permanecer com plataformas como o Teams. Assim, a avaliação do Matrix pela Comissão Europeia insere-se num cenário em que alguns Estados-membros e instituições europeias avaliam alternativas capazes de garantir soberania tecnológica sem, por enquanto, descartar completamente as ferramentas já estabelecidas.