As entregas por drones já são realidade em vários países e começam a transformar a logística urbana no Brasil também. Empresas que atuam no exterior acumulam experiência e números expressivos, enquanto aqui o avanço depende de um conjunto de exigências técnicas e regulatórias. Abaixo, explicamos como esse modelo funciona e quem está na frente dessa revolução.
Como funcionam as entregas por drones
Entregas por drones usam aeronaves autônomas que seguem rotas pré-programadas e são monitoradas à distância. Em vez de um veículo trafegar por ruas e caminhos tortuosos, o drone voa diretamente até o destino carregando a encomenda — que pode ser um lanche, um remédio ou um pacote. O processo começa com o preparo do pedido, que é colocado no drone. A nave utiliza GPS, sensores e mapas digitais para seguir a rota de forma segura. Ao chegar ao local, o equipamento pode descer o pacote por um cabo ou soltá-lo em um ponto específico, sem necessitar pousar no solo.
Além de acelerar entregas urbanas, essa tecnologia se destaca por alcançar locais onde o transporte tradicional é lento, caro ou impossível: áreas rurais, comunidades isoladas, regiões separadas por rios ou afetadas por enchentes e desastres naturais. Em muitos casos, os drones reduzem deslocamentos de horas para poucos minutos, desempenhando papel relevante na logística, na saúde e em operações de emergência.
Principais players internacionais
Zipline
A Zipline é referência global em entregas médicas por drones, com operação em larga escala e voos de alta precisão. A empresa começou operações comerciais nos Estados Unidos em 2025, levando refeições e produtos do varejo do ponto de retirada até a casa do consumidor em cidades do Texas, como Rowlett. A trajetória da Zipline começou em 2016, com experiências bem-sucedidas em países como Ruanda e Gana, onde entregava medicamentos, vacinas e bolsas de sangue para regiões remotas. Em operações iniciais, seus drones chegaram a percorrer até 120 km em um trajeto de ida e volta. Para o mercado americano, a Zipline adotou aeronaves com alcance menor — cerca de 24 km —, que decolam e pousam verticalmente, podem pairar e utilizam um equipamento secundário preso por cabo para baixar o pedido com precisão, evitando pousos em áreas residenciais e reduzindo ruído. Desde o começo das operações, a Zipline já realizou mais de dois milhões de entregas e acumulou mais de 125 milhões de quilômetros voados, e prepara expansão para cidades como Houston e Phoenix.
Wing (Alphabet)
A Wing, do grupo Alphabet, também tem se destacado entre as iniciativas comerciais de drone delivery. Com centenas de milhares de entregas realizadas — marcos acima de 750 mil em parcerias com redes como Walmart —, a empresa iniciou serviços em 2022 na região de Dallas–Fort Worth e, desde 2026, passou a atuar também em Houston. A Wing entrega mantimentos e itens domésticos em até 30 minutos para residências num raio reduzido ao redor de lojas selecionadas. Seus drones podem atingir velocidades superiores a 100 km/h e frequentemente baixam mercadorias por um cabo, método que evita pousos complexos e favorece operações em áreas residenciais. A empresa também opera internacionalmente, com presença consolidada na Austrália, e tem parcerias para entregas de refeições com plataformas como DoorDash em alguns mercados. A Wing planeja ampliar sua rede para cerca de 270 lojas parceiras nos EUA até 2027.
Amazon Prime Air
O projeto Prime Air da Amazon busca entregas ultrarrápidas de pacotes leves, com a meta de realizar entregas em 30 a 60 minutos após o pedido. Os testes começaram em 2022 em mercados como College Station (Texas) e Tolleson (Arizona), mas o avanço foi mais lento do que o esperado. Os voos comerciais ficaram restritos a poucas centenas de entregas em alguns períodos, devido a barreiras regulatórias, desafios técnicos e exigências de certificação. Em 2025, a Amazon chegou a pausar operações em determinados mercados para corrigir problemas nos sensores de altitude e atualizar o software, com aprovação da FAA para retomar entregas em locais selecionados. Mesmo assim, suas operações seguem limitadas em comparação com concorrentes, e a expansão internacional enfrentou obstáculos, incluindo o cancelamento de planos comerciais na Itália por questões regulatórias.
Cenário regulatório e técnico no Brasil
Para operar entregas por drones de forma legal e comercial no Brasil é preciso cumprir várias exigências. As aeronaves devem ser registradas na ANAC e atender a padrões de segurança compatíveis com a operação pretendida, sobretudo em áreas urbanas. Como o delivery muitas vezes envolve voos BVLOS (além da linha de visão), são necessárias autorizações específicas que comprovem controle de trajeto, capacidade de evitar obstáculos e gestão de riscos para pessoas e edificações no solo. A liberação do espaço aéreo e a integração com sistemas de controle de tráfego envolvem o DECEA, responsável por garantir que os drones não interfiram na aviação tradicional. Além disso, os sistemas de comunicação e controle precisam ser homologados pela ANATEL, assegurando estabilidade dos sinais usados durante o voo.
Experiências no Brasil
iFood
O iFood foi pioneiro na América Latina ao integrar drones ao delivery, obtendo da ANAC a primeira autorização formal para voos comerciais desse tipo em 2022, em parceria com a Speedbird Aero. Inicialmente, os drones transportavam cargas de até cerca de 2,5 kg, e mais recentemente a capacidade subiu para aproximadamente 5 kg, em rotas de até 3 km entre pontos como droneports e hubs de entrega. A operação tem sido usada para reduzir trechos complicados do trajeto terrestre, conectando restaurantes a condomínios e outros pontos. Atualmente, a experiência está disponível de forma localizada em Aracaju (SE) e Barra dos Coqueiros (SE), regiões com desafios logísticos específicos. Desde a retomada e expansão das operações em 2025, o iFood já realizou mais de 600 entregas por drones em poucos meses, com equipamentos voando diariamente por cerca de dez horas por dia. Os drones não substituem entregadores humanos: eles agilizam trechos pontuais para agregar eficiência à logística tradicional e ampliar o alcance de estabelecimentos.
Correios
Nos Correios, a entrega por drone segue em fase experimental, mas já deixou marco simbólico. Em março de 2025, no Smart City Expo em Curitiba, os Correios, em parceria com a Prefeitura de Curitiba, a Atech (do grupo Embraer) e a Speedbird Aero, realizaram a primeira entrega de encomenda por drone no país. O equipamento sobrevoou cerca de 1,8 km sob as normas da ANAC e entregou um pacote ao prefeito, demonstrando a viabilidade técnica de voos BVLOS em ambiente urbano controlado. O projeto integra esforços para desenvolver “aerovias” urbanas — rotas seguras que, no futuro, poderiam integrar entregas por drones à infraestrutura logística dos Correios. Apesar de não ser um serviço comercial regular, a iniciativa mostra o interesse da estatal em testar soluções de mobilidade aérea para acelerar e ampliar a eficiência dos serviços postais.
Outras iniciativas e testes
Parcerias internacionais e testes com foco industrial também avançam no Brasil. Um exemplo é a parceria da SwissDrones com a OMNI Unmanned/OMNI Táxi Aéreo, que realizou ensaios BVLOS entre plataformas offshore de energia na costa do Rio de Janeiro, usando drones de maior alcance e capacidade de carga para transportar equipamentos entre plataformas — alternativa mais rápida e menos custosa que barcos ou helicópteros em certos casos. Startups e empresas brasileiras, como a Speedbird Aero, expandem projetos de droneports e hubs logísticos em cidades como Salvador, conectando pontos de distribuição e explorando rotas mais longas para drones de maior capacidade. Essas iniciativas incluem voos com potencial para cobrir mais de 30 km entre pontos estratégicos e integrar transportes multimodais (drones + entregadores terrestres) em setores como cosméticos, saúde e varejo de pequeno porte.
O que esperar em 2026
Para 2026, a expectativa é de mais testes comerciais, normas mais claras e aumento gradual das entregas por drones em operações logísticas específicas. A tendência é que as autoridades publiquem atualizações nas regras, possibilitando operações mais amplas e padronizadas conforme o setor amadurece — com avaliação de risco, exigência de seguros apropriados e maior integração ao controle do espaço aéreo. Com avanços regulatórios e interesse de empresas nacionais e internacionais, 2026 pode trazer crescimento mais visível das entregas por drones no Brasil, não apenas em rotas experimentais, mas também em aplicações comerciais em centros urbanos, áreas rurais e setores especializados como energia e saúde.
Você está ansioso para usar esse tipo de delivery por drones? Conta pra gente nos comentários.